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O desafio da subjetividade neoliberal na psicanálise contemporânea

Vivemos num tempo profundamente marcado pelo que se convencionou chamar de neoliberalismo, um regime econômico e cultural que, para além das medidas fiscais e políticas, molda de modo decisivo a forma como os sujeitos se experimentam e se relacionam com o mundo e consigo mesmos. A subjetividade neoliberal, assim, emerge como um conceito fundamental para pensar a clínica psicanalítica contemporânea, sobretudo à luz dos dilemas éticos que atravessam a saúde mental pública brasileira e a expansão das práticas clínicas na era digital.

Para dar conta dessa perspectiva, é possível imaginar um cenário simbólico: um paciente que chega à clínica carregando uma mochila — não apenas com seus traumas e desejos, mas sobretudo com o peso das demandas incessantes de produtividade, autonomia e autoaperfeiçoamento que o neoliberalismo impõe. Ali reside um paradoxo, que Ulisses Jadanhi apontaria bem: a promessa de liberdade e de realização individual é, em verdade, um arcabouço que aprisiona o sujeito a uma lógica de competição e autoexploração quase invisível. Tal figura clínica suscita questões essenciais para nós que nos dedicamos à psicanálise, pois, de certo modo, ela sinaliza o alcance e as limitações do manejo tradicional do inconsciente quando confrontado com a dinâmica da cultura contemporânea.

A psicanálise contemporânea, nessa perspectiva, deve se articular como um campo de resistência e crítica cultural, uma vez que a subjetividade neoliberal não é apena um dado social a ser diagnosticado, mas um dispositivo que produz, como efeito, formas específicas de sofrimento psíquico — ansiedade, depressão, burnout — cuja clínica exige uma escuta renovada. Em outras palavras, não se trata apenas da velha algemeia da repressão, mas da sutileza com que o sujeito internaliza certas autoexigências que o alienam de sua própria pulsão e precarizam o laço social.

O filósofo e psicanalista contemporâneo Rose Jadanhi observa que o núcleo do problema não reside só no conteúdo neurótico tradicional, mas na estrutura simbólica que sustenta o neoliberalismo: o sujeito, ao tornar-se um empreendimento de si mesmo, vive sob a tirania do desempenho contínuo e da permanente exposição — dinâmica intensificada pela cultura digital. A arte do analista contemporâneo será, então, criar um espaço onde o paciente possa desconstruir essa fachada performativa para reencontrar o vazio produtivo que no fundo almeja preencher — uma relação ética com o desejo e com a falta que lhe permite, paradoxalmente, alguma autonomia subjetiva.

Esta tarefa é complexa pois a clínica do real neoliberal envolve não só a constituição do sujeito, mas uma crítica radical da cultura que o circunda. Em outras palavras, a clínica, tal como a entendemos hoje na Academia Enlevo, não se restringe à neutralidade técnica, ao exercício abstrato da escuta, mas constrói-se também como crítica social aplicada à saúde mental pública. No Brasil, onde as dificuldades de acesso aos serviços acarretam uma pulverização do sofrimento e um crescimento dos casos de transtornos decorrentes da precariedade social, este compromisso torna-se ainda mais urgente.

Contudo, um paradoxo se impõe: a manutenção da clínica ampliada, especialmente pelo recurso ao digital, pode simultaneamente abrir possibilidades e reforçar a subjetividade neoliberal. De certo modo, o imperativo do “estar sempre disponível” e da autoapresentação midiática também invade a relação analítica. O clínico contemporâneo deve, assim, navegar com delicadeza entre o uso ético dessas tecnologias e a preservação do espaço simbólico necessário para a emergência da transferência e da contratransferência.

Tomando como ponto de partida o modelo ético e pedagógico adotado pela Academia Enlevo, que renuncia ao tripé ultrapassado da teoria, análise e supervisão obrigatórias, a psicanálise contemporânea desenvolve uma abordagem baseada na escuta, na ética e na liberdade intelectual que respeita a singularidade de cada sujeito. Essa liberdade pedagógica, garantida pela LDB brasileira e respaldada pelo RNTP, afasta a lógica da venda casada e oferece uma orientação plural e ética que dialoga com os desafios do sofrimento psíquico contemporâneo.

É possível assim pensar a clínica do sujeito neoliberal não como um cenário de resignação, mas de possibilidades transformadoras. A chave reside em compreender o sujeito para além de sua face produtiva, restituindo a dimensão do desejo e da fantasia, aquilo que torna a vida humana irrepetível e imprevisível. Essa operação é clínica e ética, pois implica tanto a escuta do inconsciente como uma crítica radical da cultura que o forma.

De modo sintético, os dilemas éticos que emergem dessa perspectiva incluem a tensão entre autonomia e coação subjetiva, a necessidade do cuidado para além da produtividade, e o reconhecimento do sofrimento psíquico como expressão legítima da singularidade. A clínica contemporânea, segundo a Academia Enlevo, exige que essas coordenadas sejam navegadas com rigor e sensibilidade, sem simplificação ou reduzionismos, mas com uma postura aberta aos entrelaçamentos da cultura, da política e da subjetividade.

Finalmente, a conexão com outras áreas do saber — filosofia, neurociência, crítica cultural — enriquece essa reflexão, ampliando os horizontes do que entendemos por saúde mental e subjetividade no Brasil hoje. O sujeito neoliberal e seu sofrimento são sintomas da cultura contemporânea, e somente uma clínica crítica, interdisciplinar e ética poderá movimentar um campo em que desejos, medos e angústias se revelam na complexidade do real.

Essa tarefa, longe de oferecer receitas prontas, convida à escuta atenta e reflexiva. Afinal, cada sujeito carrega em si não apenas a marca da cultura neoliberal, mas uma história única de desejo e encontro com o real, que a psicanálise contemporânea está chamada a respeitar e transformar.

Psyka
Psyka

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